domingo, 3 de março de 2013


TRAVESSIA

São tão vastas as planícies devastadas
As terras calcinadas na fuga das águas
Galho seco quebrado na asa do vento
Flácidas as mamas das mulheres e das vacas.

É o ciclo, o momento, a fase, o motor
Roda imperiosa a demarcar o destino
Travo adeus à terra do leite e do mel,
Perdido ao longo do caminho o sentido do anel e da aliança.

Olhai,
Sobre os corações empedrados estendidos,
Lençol dos insolúveis pesadelos humanos,
Arca de nuvens de chumbo pintada de ouro,
O sentido perdido em meio ao deserto das constelações em fogo.

Foram-se os sentidos
E o sentido das coisas perdeu-se,
E dentro do emaranhado não pode haver nenhum sentido.

Como encontrar de novo o sentido real e verdadeiro?
No redemoinho das coisas e dos ventos
Estaria o sentido esquecido nalgum porão de mim mesmo?

Vago pelas estreitas veredas do pensamento
Largos e vagos os caminhos
Todos levam de volta ao mesmo começo,
Cada caminho me desviando de outro,
Às vezes perplexo diante do espelho,
De outras perplexo ao me ver refletido no outro,
E algo sempre perplexo com os rumos da vida.

É como entrar em um trem,
E depois de estar nele não saber em que estação se embarcou.
É como estar dentro de um trem
E não saber como será o desembarque nem a estação.

Assim tem sido,
Desde aquela saída do grande portão.
E por isso ando pensando,
Ter comido do fruto do bem e do mal,
A mim me fez bem ou mau?

Então posso começar a crer,
Esta história do fruto proibido é a mais fantástica manipulação.
Há segredos muito mais complexos e antigos que historinhas de egos
                                        [nus se bolinando na floresta da negação.

25 de maio de 2012



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