sexta-feira, 26 de maio de 2017

TRAVESSIA
São tão vastas as planícies devastadas
As terras calcinadas na fuga das águas
Galho seco quebrado na ponta do vento,
Flácidas as mamas das mulheres e das vacas.
É o ciclo, o momento, a fase, o motor
Roda imperiosa a demarcar o destino
Travo adeus à terra do leite e do mel,
Perdido ao longo do caminho o sentido do arco-íris
Sinal de anel e de aliança.

Olhai,
Sobre os corações empedrados estendidos,
Lençol dos insolúveis pesadelos humanos,
Arca de nuvens de chumbo pintada de ouro,
O sentido perdido em meio ao deserto das constelações em fogo.

Foram-se os sentidos
E o sentido das coisas perdeu-se,
E dentro do emaranhado não pode haver nenhum sentido.
Como encontrar de novo o sentido real e verdadeiro?
No redemoinho das coisas e dos inventos
O sentido e direção esquecidos nalgum porão de mim mesmo?

Vago pelas estreitas veredas do pensamento
Largos e vagos os caminhos
Todos levam de volta ao mesmo começo,
Cada caminho me desviando de outro,
Às vezes perplexo diante do espelho,
De outras perplexo ao me ver refletido no outro,
E algo sempre perplexo com os rumos da vida.

É como entrar em um trem,
E depois de estar nele esquecer a estação em que se embarcou.
É como estar dentro de um trem na viagem
E não saber onde será o desembarque nem qual a próxima estação.

Assim tem sido,
Desde aquela saída do grande portão.
E por isso ando pensando,
Ter comido do fruto do bem e do mal,
A mim e a você fez bem ou mau?
Então posso começar a crer,
Esta história de fruto proibido é a mais fantástica manipulação:
Há segredos muito mais complexos e antigos que historinhas de casal
                                                    [nu se bolinando na floresta da negação.


Sem data do Zip net
POESIA
Eu vou escrever uma linha feita de amor 
Para costurar você no pano da minha vida.
POEMA
Vou inventar uma linha feita de amor
Para escrever você no caderno da minha vida


26.05.2017

segunda-feira, 22 de maio de 2017

PASSAGEM
Música

Passaram pela noite tantas luas
Iluminou o sol tantos dias
Uma após outra vieram as estações
Amadureceu a fruta na campina
Brilhou de luz a floresta
Em quietude as coisa se abraçaram de amor calor.

19.05.2-17

domingo, 21 de maio de 2017

CHOQUE
Ó Senhor, acordei com a boca amarga hoje,
Mal me levantei disparei palavrões para todos os lados.
E cansado, recordei o que vi.
Ódios incomuns entre homens seus iguais,
Seja o motivo comida, bebida, verso, poesia, boêmia ou trabalho,
Habitadas por mulheres de corações supurando venenos escuros e letais,
Olho vazado no olho da vida real,
Língua ferina serpeando entre lufadas de invejas impregnadas de desejos insatisfeitos,
Na rede virtual entremeada de quatro paredes,
A real solidão das faces iluminadas de vazio,
Vigília inútil dos que velam velas sem rumo,
O book repleto de falsas feições,
Retratos sortidos de narcisos e narcisas enfeitados de outras intenções,
Pelo fogo-fátuo engolidos on-line,
Prisioneiros na precisa moldura retangular da lucífera luz.
Cobrindo-se do pano roto da vaidade enfurecida,
Personas esquecidas de si mesmas nos labirintos do próprio ego,
Em meio às salas da sede insaciável regurgitando ilusões,
Almas escondidas sob o tapete de segredos mal contados e outras mentiras.
E por aí foi, Senhor, uma madrugada viva de pesadelos,
E já sei, não canso de lembrar, tenho que comer do suor do meu rosto,
Logo tornarei à terra, pois assim é, assim disseste:
"Pois desta foste formado,
Porque és pó e ao pó tornarás".
Sim, Senhor, tudo isso e nada disso,
Porque tudo isso é nada.
E olho de esguelha para a tal da humildade, ela quieta lá encostada, Senhor.
E penso na maldade humana.
Cruzes, eu humano penso.
Então é nisso, Senhor, que estou pensando agora,
Por que nesta madrugada fui testemunha daquilo que humano sou.

data?
RESPOSTA

Minha cara,
Perguntas-me o que quero.
Eu não sei o que quero,
E são muitas as coisas que não sei,
E menos ainda as que sei.

E é assim que tenho vivido,
Não tenho saber das coisas,
Logo, não sei o que quero.

Mas está chovendo
E a chuva me traz a tua lembrança
E se eu pudesse querer alguma coisa
Eu quereria estar nela com você
Eu inteiro banhado na tua cor.

E mais eu quereria,
Que a chuva continuasse à noite
E quando estivéssemos deitados
Que o marulho da chuva nos trouxesse conforto
E alegria de nos sabermos um no outro.

Eu não sei o que quero, mulher
E talvez saiba melhor o que não quero,
E o que não quero é tua distância
Estando você tão perto de mim.

21.05.2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

FOGUEIRINHA DAS VAIDADES

Pro caldo de feijão engrossar,
Gostando ou não do gosto em questão,
Em fogo brando ou fogo alto,
Seja confessional, de ordem social,
Ou lirical branco,
Deixa queimar, deixa queimar,
Que só assim a pedra fundamental no atanor há de se revelar.
Então queima, baby, 
Queima tudo sem dó nem piedade,
Que no mais a merda que caguei
E tudo o mais há de virar pó.

13.12.2012
RENDA

Entre relicários
Ao tempo antigo adormecidos
Alma portuguesa velando mares
Velas desdobradas sobre teu corpo
Teu coração de guirlandas paramentadas
Rosas e cravos entre dedos desenhados
Linhas, muitas linhas nas mãos quentes
Entremeadas a elas eu fio perdido
Entre tantos nós, eu em você achado.

4/4/2011
ESTAÇÕES

Ah, então a vida é isso,
Um contínuo passar de estações
As quatro temporais outras tantas virtuais
No entanto tão entranhada na realidade
Da passagem das horas
Da saudade que aumenta sem limites
Do amor que transborda e faz do coração uma ilha
Do saber que morreste em vida
E já és rosa sem viço deitada na pedra de cristal.

E a vida é isso,
Este estar a vagar de estação em estação
Jurubatuba, Presidente Altino
Que elas jamais se acabam
Osasco, Granja Julieta,
E por onde mais se estiver,
Todas as estações onde eu possa chegar a ti,
A teu nome, calor, tua boca, tua língua
Tuas palavras em mim cio estilete e vidro,
Perfuro-cortante a tua ausência em nenhuma estação.

Era só passar por ela e partir,
Mas não, me encantei com a que não há igual
Me encantei à vista da pérola perdida,
Me encantei com a brasa acesa em chamas.

Era passar e ir, 
Mas fiquei,
E agora moro e morro em ti memória,
E desta estação de espera te espero
Que a vida é isso,
Esse passar de estações,
Às vezes parar, descer do trem,
Deitar palavras ao vento,
Amar
E se deixar amar.

E de novo,
Na sombra do vento,
E sempre,
Partir.

5 de abril de 2011

RETRATO

Entraste na trilha da minha vida,
Todos os meus varais estendidos para você
Feito estandartes e bandeiras ensolaradas
Ao passar por mim entre panos perfumada
Na tarde em que solene e branca
À sombra das palmeiras imperiais
Na minha vida entraste.

9.10.2012
A VAGINA E A LIBERDADE

(mas poderia se chamar "as palavras")

Eu penso na vagina
Esse abismal estreito em que mergulho a vontade
E derramo o meu desejo
E analiso:
A sua estrutura, sua cor
Seu desenho, sua textura
-Que todas de carne
Mas cada uma com sua nervura própria-
Forma, cheiro, gosto, umidade
Tudo que envolve o mistério daquela fenda pela qual saí um dia.
E uma delas, pode enlouquecer;
Muitas, então, nem se fala.

Eu penso na liberdade
Essa coisa que está no meio de nós
Essa coisa que está entre ser uma palavra
Um sentimento
Alguma coisa vaga
Distante e ao mesmo tempo tão próxima e viva
Pela qual sei que  estou sempre aspirando.
E analiso
O que me falta no quesito liberdade?
Por que sinto culpa por ter liberdade?
Por ser pardo?
Por ser negro?
Por ter parentes africanos?
Por ter antepassados pretos e escravos?
Ou tudo junto?

Mas afinal
É uma crise de identidade a liberdade?
E essa incapacidade de me posicionar no espaço dentro do tempo?
Mas afinal, 
É a liberdade um estado de consciência do ser
Dentro da qual a realidade se manifesta ao homem
Como bem estar comum de todos, incondicionalmente?

Porque vejo que a estrutura  social tem falhas de alicerce 
E isso abala  todo o sistema;
Parece discurso
E as cores nele projetadas não revelam
Confundem;
Os desenhos mau alinhavados entre etnias
Não corrigem os desvios da diversidade
Antes, distraem-nas, apenas.
As texturas das relações sociais sempre remendadadas
Ao invés de entretecidas entre si
Resultam embaralhadas 
 Diferenças não resolvidas.
A forma distorcida como é encarada
A liberdade moral
Social e política do  indivíduo 
 Encarcerando-o em função  de sua posição na sociedade
E por consequência inibindo a sua livre manifestação como pessoa humana.
O cheiro forte das senzalas do passado ainda minando a conduta
Sugando a  força da auto estima  no presente
O gosto do sangue derramado nas pedras áridas dos pelourinhos
Clamor da alforria
Hoje vagas na Universidade 
Estatutos mil promovendo shows de igualdade
A umidade que se espalha, penetra e desmancha das coisas a unidade
Inclusive o mistério que embrulha essa coisa
Que com certeza não é uma estátua:
A Liberdade.
Sou sei que dela saí um dia
E a ausência dela, amarga prisão, pode enlouquecer.

Eu penso no cu...



10 de Setembro de 2009 - Lançado Sarau da Ademar

APRENDIZ DO SOL

Andei pelos campos do sul
Entre as linhas das estações
E por onde passei o sol brilhava,
Aquecendo a natureza e meu coração.

E nas tardes em que o pôr-do-sol prometia noites lúcidas
Claro caminhante da vida e fazendo meu caminho
Em meus passos desenhava o futuro e me dizia:
Quem sou eu?,
Senão da vida do sol um aprendiz
Pássaro desperto na delicadeza do instante,
Alguém que ao entardecer compreende,
O amor, além de desconhecido,
Por vezes é mar calado,
De outras vento voraz, 
Quando não chão sobre nuvens.

Sim, apenas um discípulo do amor
Olhando para o abismo de rosas enfeitado de espinhos, 
Meu coração embalado numa certeza:
Face escura da lua continuas calada
Da saudade me fazendo aprendiz.

30 de abril de 2011/ Com colaboração de uma aliada.
ANGÉLICA E ESSA GENTE DIFERENCIADA

Ô Angélica,
Tu que vieste de algum chique lugar,
Quem sabe Sergipe ou Buenos Aires,
Tu sabes, vivo saltando de galho em galho,
Igual macaco prego n'árvore,
De estação em estação no atraso,
Direto na linha laranja ligado,
Me diga, me responda, Angélica,
Sou diferente
Ou sou gente diferenciada?

Porque isso não se faz, Angélica, 
Tirar do meu caminho uma parada,
Eu sei, é difícil esse negócio, 
Passagem bem na frente do teu edifício,
Tu dizes e lá está abaixo-assinada,
Aqui em frente à minha mansão, não,
Churrasquinho de gato, produtos pirateados,
Ô Angélica,
Só tu podes me dizer,
Estou num dilema, inteiro perdido,
Será que errei no cálculo?,
Entrei e dei com a porta na cara;
Afinal, Angélica,
Sou diferente de outras pessoas,
Ou de algumas pessoas sou gente diferenciada?

Ô Angélica,
Me responda por favor, 
Excesso de higiene é coisa muito errada,
Não esqueça aquela história,
Trem só anda se for nos trilhos,
Se sair a vida fica descarrilhada.

Ô Angélica,
Tu que tens o destino já traçado,
Me diga, Angélica querida,
Sem a próxima estação,
Como vou chegar em casa?

Ai ai, Angélica tão amada e desalmada,
Me livra dessa angustiosa dúvida,
Sou diferente 
Ou sou gente diferenciada?

15 de maio de 2011
SAUDADE

Estou doente.
Doente de sentir tanta saudade.
Tão doente de saudade que sinto,
Vou morrer, 
Sim, vou morrer de saudade de você.

Estou doente e preso,
Prisioneiro nas amarras da saudade,
Preso de coração trancado,
De toda alegria desligado
Morrendo, quase morto estou,
Morrendo de saudade de você.

Nenhuma novidade me apraz,
Nenhuma notícia por melhor que seja,
Nenhuma música, cantar ou cantoria,
Nada, nada, nada me traz qualquer alegria,
Porque em mim faz morada a saudade,
E estou fatigado e banhado em dor,
A dor da saudade embutida na tua ausência,
A dor da saudade a matar cada um dos meus dias.

Estou sempre cansado, com sono e triste,
Meu coração isolado uma ilha,
Rodeado por esta saudade que não cabe,
Uma saudade de matar por saber,
Estás distante de mim todas as milhas.

E esta saudade invade,
Feito ondas de calor queimando,
A tudo cobrindo negra mortalha,
A luz do sol em meu céu apagada,
À míngua suspenso no ar,
Igual peixe no anzol fisgado na língua.

É assim que estou,
De toda saudade coberto,
Em meio a esse mar de mim mesmo perdido,
Mar de silêncio e deserto,
Vento solar soprando do viver agonia,
Meu coração sem norte,
Sem céu, sem lua,
Carne e alma em sonho perdidas,
No peito essa dor de matar,
A dor da saudade de você,
Minha tão amada mulher querida.


A saudade me engolindo noite e dia,
A saudade de você a me encher de escuridão,
Mergulho na mais gélida e fria água de solidão,
A saudade a me arrancar do peito grito mudo,
A saudade a me tirar da mente toda e qualquer razão.

Estou morrendo,
Vou morrer de saudade de você.

17/18 de maio de 2011
PINGUELA

O facho d'água me revela
Clara margem da vida
Minha cara ao sol
Nesse espelho de prata
Na lata d'água do destino
Eu menino mergulhando no Pedregulho
                -Bem ali, atrás da favela da Paz-
E o primeiro mistério do medo:

Diante da pinguela o gelo no peito
Crava na goela um nó
               -Mas você tem que atravessá-la
E lá embaixo
A corredeira, as pedras 
Palavras, tiros
O som e a fúria da vida
Os amores perdidos
As guerras
E outras pedras
A vida correndo solta lá embaixo
A vida inteira
A vida inteira é uma travessia
A vida inteira é uma pinguela,
Meu amor.


25 de outubro de 2010

TEMPESTADE

Abriu-se o céu de mim mesmo
Rumor de trovoadas ao longe
Cintilar de facas entreabrindo-se
Trinca de cristal rasgada ao espaço

Fragmentos de luz lambendo nuvens
Sombras buscando esconderijos entre vales
Elétrons em desabalada fuga magnética
Eis o primeiro fóton despejado ao éter

Líquen entre átomos de hélio e hidrogênio
Antiga ausência de matéria e tempo
Nada imerso no nada:
                                     -Do nada viemos.

DERRADEIRA

E um dia
Ou dia menos dia
Mas certamente num dia certo
Ou num certo dia
No ar me ficará suspensa a respiração
E desta não haverá a natural sequência
Expirar para poder continuar pensando e existindo.
E não só esta, mas suspensas no espaço tempo 
Toda e qualquer outra sequência para todo o sempre.

E vejo isto com a mesma absurda nitidez
Da leitura que faço dos poemas de Pessoa
Dia menos dia
Resultado da soma de todos os meus dias vividos
Preciso número das horas acordadas
Claro algarismo de quantas horas dormidas
Na redundância do diamante finalmente polido e lapidado
Sem aviso prévio, ainda que já cansado de ser avisado
Breve, único e sem retorno
Derradeiro fôlego, último respiro a ser dado.

Claro e tal como quando acordei nesta manhã
Cada exata palavra compondo suposto verso
Sobre a linha azul da folha em branco
Vogal por vogal consoante significado e significante
Embalado por um incômodo e insistente pensar:
-Vou estar tão  lúcido como agora no último instante?


FIO DE OURO

Alta madrugada
Prenúncio de um novo dia
E por dentro das cadeiras e dos ossos
E fora das coisas e no entorno delas
Sobre o altar
Em cima da cama
À mesa de comida
O silêncio das palavras flutuantes pelas esquinas
Em espasmos e soluços inversificáveis
Da mente as pedras trilhadas trilhas
E o topo da montanha
Adaga na memória do granito cravada
E outra montanha
Na boca de Cíntia Cenário "o livro de deus rasurado"
E outra montanha
Não há e jamais haverá algo novo sob o sol
Aqui é o mundo
No silêncio das sombras se diluindo
Em meus dias incontáveis artérias veias vias
Melífluos sorrisos de porcelana pintada
O que pode ser contado, caboclo
São só os dias vividos
E nada mais.

Alta madrugada
E as correntes astro-físico-celestiais arrastam seres
E mandalas iridescentes micros e macros espalhadas pelos reinos
De todos os seres os vivos os imaginários
E os que ainda haverão de Ser,
Saibam todos
É só o começo da viagem
Alta madrugada
Fuga dentro da pele negra da noite o estalido do chicote
Língua lambendo outra carne
Aquela que se nos pega
Se nos gruda  no corpo 
E nele deixa marcas, cicatrizes, rugas
A língua das horas ardendo no caldeirão
Na vida o fogo a ardência de todo doce veneno
Passado-presente-futuro - eia, vida!
Destilada a tarde em orvalhos  de flocos secos
A transparência das ervas molhadas da fumaça de terras verdes
Nas tardes cobertas de ventos acesos pintados do amarelo de Van Gogh.

Alta madrugada
Silêncio no meio das pernas das pétalas úmidas e encarnadas
O peso da sombra da minha mão arranhando a folha de papel
Aos ouvidos escravo me dizendo: sombra é prova de vida
Quando sumir a minha sombra
É porque não terei mais existido.

A vida é curta
E este dia chegará
E assim como agora, as coisas continuarão existindo
Não há nada para contar, caboclo
A não ser as risadas dadas e os dias idos.
E nada mais.



28.06.2010

NATO

Primeiro fui um eu nascido.
Havia então acabado de descer
Trilha da barriga de minha mãe,
Vitaluz de cedro e lama.

E de crescer cresceu em mim um sentido
Um desvio de vista e retina
Revelar no olho olhar para o céu
Árvore, pássaro, pé de manga
E uma chuva de gotas pretas,
Jabuticabas de gude embocadas no buraco,
Borboletas chovendo águas de vento,
O rádio deitando na paisagem uma canção,
Meu pai seresteiro entoando boiada
Boi brabo cavalo selvagem doma de sangue
Estendida no varal folhas de lágrimas.

Silêncio de manhãs nuas diluídas em amarelo,
Tarde guardada numa gaveta de sal 
A boca a mastigar ao sol uma garfada de vida.

25.11.2012

PEITO ABERTO

Vou vestir uma camisa de nuvens,
Aberta, livre de botões,
Uma camisa de nuvens
Que combine com o vestido dela
Verde, vermelha, amarela, azul,
Uma camisa com muito mais de 50 tons,
Vou vestir para ela uma camisa de fazer canções.

28.11.2012
CONSTATAÇÃO

Ainda que eu quisesse te esquecer
Por mais que eu quisesse ou queresse
Não conseguiria não consigo
Não quero não conseguirei te esquecer
Teu corpo calor deitado em meu corpo
Entre lençóis brancos de cetim
Tua pele tua boca pétala dorso
Tuas ancas escorregadias curvas
E tudo quanto desconheço em ti
E que num certo dia hei de habitar,
Assim como me habitas agora,
No cheiro das minhas mãos impregnadas do teu cheiro
E nas folhas do livros que tocastes
E nas pregas de minhas roupas
O éter da tua  presença
Teu humus teu sumus tua umidade nua
Entre folhas de verde pura luxúria
E espumas de seda brilhante
Eu e você deitados em cama de veludo
E lá no céu  estrelas
Um fogaréu de chamas
E  aqui águas
E borbulhas
Eu de Adão
Você de Eva
-Pode expulsar, senhor,-
Nós dois eu e ela fazemos o paraíso.


8 de outubro de 2010  - Entreouvidos blues e 'plaisir d'amour' by g. martini, várias interprétes. afe! ah, senhor, assim eu não aguento.