terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


PRIMEIRA PARTE DE "SETE ANOS E DOIS MESES - Depoimento" 

SETE ANOS E DOIS MESES

                                                                        para alguém que ama a Vida, mas não sabe o que fazer com ela


                      Sete anos e dois meses. Desde a primeira pipada nas escadarias de Ouro Preto em meio àqueles malucos. E a primeira vez a gente não esquece. Desde aquele instante, eu menina recém saída de casa, praticamente fugida, dezoito anos completados ainda naquele mês de julho passado. Era janeiro e foi a primeira vez. Sete anos e dois meses. Desde a primeira pipada  a fissura despertada e a busca incessante por outra pipada.
                      Olho para trás e vejo, cada um dos movimentos, cada uma das minhas idas e vindas, cada amigo, marido e amante que tive ao longo desses intermináveis sete anos e dois meses foram com o propósito de queimar a pedra. Todos quantos apareceram e desapareceram da minha existência  foi para sustento e manutenção da pedra.

                       Sete anos de viagens e buscas infrutíferas que deram em nada e por fim, agora, o retorno à casa onde eu não queria morar: a casa do meu pai. Mas o que importa é a pedra e logo eu saio desta também, só preciso
me salvar por algum tempo, senão a carcaça não aguenta, nada que algumas vitaminas não resolvam. E comida de mãe. Me salvar na casa onde estão guardadas minhas mais amargas memórias:  sevícias, violências, gritos, intimidações, álcool, sobressaltos na cama, como é possível?,  me interrogo, e na pedra me guardo, na pedra me refugio, na
pedra dissolvo todos os meus problemas.
                       Mas esse é o fato, sete anos e dois meses em linha reta de fuga para o vazio, no plano pessoal, espiritual e geográfico, mas sei, tudo pela pedra, pois não houvesse a pedra no meu caminho e tudo seria diferente. Mas a
pedra me deu a força, a força para me firmar no caminho torto e me  auto-destruir. E reconheço, estou num intervalo e todo intervalo é a preparação para arrebentar num re/volta ainda mais profunda, círculo em espiral sem fundo. É para isto que vivo: para sustentar a minha dependência da pedra. 
                      Tenho desequilíbrios psico- físicos profundos e tão agudos que até um cão vê, sinto isso; acabei formatando para mim outra realidade que não corresponde ao que se vive normalmente durante a vida no seu dia-a-dia, pois para mim  isso não importa, qualquer que seja a fonte, tão logo o dinheiro venha às minhas mãos ele passa às mãos dos  meus sócios, os traficantes. Meu negócio é queimar cocaína em pedra e eu faço qualquer coisa por ela.
Na minha vida de corrida em busca da pedra não me interessam pessoas, se elas deixam de me amar ou não, são todos meros personagens passageiros, meros caminhos para a pedra.Só ficam comigo, ainda que eu saiba, sempre por pouco tempo, os que de algum modo me ajudam a me manter para consumir a pedra. E controlo conforme a situação, sou boa nisso: não é preciso muito para manter um homem nas rédeas, manso, calmo, ordeiro e carinhoso; pelo menos por algum tempo.E  ainda se achando. Depois, tudo é passageiro mesmo, que se foda! E tudo que preciso é isto, me manter distraída entre uma e outra crise de abstinência, as agulhas ferroando minha cabeça, possível prenúncio de  um AVC, náuseas e desarranjos intestinais permanentes, calafrios inoportunos, tremores involuntários, febre, muita febre, dores nos músculos, nas costas, nos pulmões e no coração, e uma  fadiga constante de corpo e alma, fadiga traduzida em preguiça que eu gostaria de deitar sobre uma esteira numa praia e lá ficar estendida para sempre.
O importante é que sei, bem ou mal eu vou chegar, bem ou mal eu sempre chego à pedra, bem ou mal a pedra sempre chega até mim. É é só isso o que é realmente importa.
                   E isto há sete anos e dois meses da minha curtíssima vida de vinte e cinco: trafiquei, batizei, trambiquei,
menti, minto e  mentirei necessário for (e será),  pela pedra, vou mentir, porque sei, perdi a noção do real, do verdadeiro, porque isso é que vivo,  noite e dia: a pedra. Sete anos e dois meses no corre, subindo e descendo ladeira para lugar nenhum, levando o azar e a doença por onde passo, ano após ano,dos dezoito aos vinte e cinco anos, sete anos e dois meses de carreira por amor à fumaça do nada, a pedra do crack.

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