77 ANOS
As varandas arejadas de folhagens verdes
Ardentes folhas resvalando a barra da saia
Rodada à volta em círculo flores estreladas
Nas pregas do vestido iluminado de cores
Um toque de maciez que só a pele de mãe tem
A primeira das carnes em que me fiz e conheci.
Já faz tempo, senhora das minhas imprecisões
E perguntas absurdas tais como:
-Senhor, como não angustiar as mulheres que amo?
-Ó destino, como não ferir estas que colocaste à volta
E no contato com a rosa e espinhos do meu coração?
Sim, embrenhei-me numa floresta fechada,
Dentro de um alheamento atormentado e umbroso.
Mas nada disso é espantoso;
As varandas já não existem mais
As flores murcharam num retrato preto e branco
E os tempos continuam tão imprecisos como quando nasci.
Eu só penso:
É mais que a beleza, poesia e carnalidade do sexo;
É mais que impressões guardadas do dia que mais amei,
Desejei e quis uma mulher.
E estou certo, este dia há, e esta mulher não é minha mãe.
Ainda que entranhado nessa floresta de sensações
E outras dúvidas vagas e graves:
-Mas então viver é isso mesmo?
Nascer, crescer, nalgumas vezes sozinho chorar
Noutras se fingir de ser qualquer coisa
Quem sabe usar um chapéu ou boné esquisito
Não ter conta em banco e andar de chevette?
Olho pra isso, rio e vejo o rio que passa
Leito cheio ou vazio ele corre e passa
Até que um dia seca,
Isso não é vida ver a vida assim.
Pode ser tarde, mas algo aprendi:
O dia de mais amar, querer, desejar e ter uma mulher
Ainda está por vir.
E se já foi, pode ter sido hoje.
Varandas, folhas, versos, sexo, poesia, mãe,
Fotografia, chapéu, vela, nuvem e vento,
Tudo passa, e em mim a secura da pergunta:
-Mulheres, como melhor amá-las?
Outro possível verso final: "Mulheres (deixassem elas), como melhor amá-las?"
8 de dezembro de 2010
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