Estou cansado.
Cansado do que tenho sido.
Não me faço alvo fácil de ninguém,
Antes, estou na defesa golpe desferido,
É minha língua o chicote
Fogo e gelo pregados na retina
É assim desde a infância, no rebote:
Deu, levou, é a minha doutrina.
Teve bulling sim, comigo, e muito,
Mas quanto pude me defendi,
Apanhei também, bati mais um pouco
Por isso paguei,
Você vai ficando sozinho arredio
A rebeldia é um jogo,
Por vezes você diz, ganhei!
De outras, perdi.
Mas jamais fui mau.
O mau foi ter visto algumas coisas que vi,
Coisas que só entre humanos se vê,
E dessas coisas que vi é que me fiz.
Queria saber perdoar,
Para então perdoar a mim mesmo.
Mas não posso,
Sou humano
Demasiadamente humano
Covardemente humano.
E sofro herói que me acho
Heroicamente humano, bruder Nietzche,
Ridiculamente humano
Na fantasia de super-homem vestido pra poder suportar.
E então vago pelas noites sangrando palavras
Tecendo a trama de cada sol com fios de água,
Muitas vezes quase de mim esquecido,
Sobre o abismo inclinado pronto para outra queda,
Apagando no paiol íntimo a pavio aceso em brasa.
E então paro e decido:
Tudo já enlouqueci,
Tudo já enlouqueci,
Não vou enlouquecer mais do que isto.
Já compreendi, Senhor,
Não precisa bater mais,
Nunca, nunca, nunca hei de entender o enigma,
Um vaso de barro não pode conter o infinito.
E então choro,
Porque não há outra coisa a fazer:
-Ó, porque fui entender isso?,
A mesquinhez humana é o seu próprio limite.
Mas e então, e daí?
Estou cansado,
Faço desse cansaço versos
Mas não vejo poesia nenhuma nisso;
Disso sei, vós sabeis, todos vêem, estou cansado,
Cansado de ser o que tenho sido,
E saudoso do que não tenho sido,
Porque assim tem sido
E amanhã assim será.
E assim sigo.
Até o fim e o próprio sentido.
10 de setembro de 2012**
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