SARAU, TESTEMUNHO E CONSCIÊNCIA NEGRA
(Não são versos, é texto corrido, aqui sai editado assim não sei porque)
Vou a um lugar, um centro, um ponto, templo, porto, lugar onde
seres humanos se reúnem para falar a palavra, nesse movimento
que vem desde tempos imemoriais na história do homem. Neste
caso, o sentido da reunião é um sarau poético. E nesse ambiente
a diversidade rola solta, com absoluto senso democrático, aí já
embutido o conceito de silêncio para se poder ouvir o outro, a
linguagem sendo usada e abordada por todos os ângulos e senti-
dos imagináveis. E se torna pura diversão o prazer (ou não), de
se ouvir as mais diversas tribos e pessoas declamando versos.
Sou sempre grato por partilhar disso, de estar no movimento e
em movimento.
Então, é como um templo, você senta e ouve o testemunho do
semelhante e gostando ou não é de bom alvitre aplaudir. E em
querendo, quem lá estiver pode dar seu testemunho verbal. E
entre todos os testemunhais, quando vou a esse templo, um que
sempre me emociona é o de Dona Edite.
Nesse dia dei o meu testemunho lendo "Poema em Linha Reta",
do Fernando Pessoa, mas antes de fazê-lo dei uma palavra sobre
o Dia da Consciência Negra, comemorado em feriado nacional
no dia anterior.
Citei Makota Valdina e a frase a ela atribuída, mostrando a minha
cor: negra: "Eu não descendo de escravos, descendo de seres
humanos que foram escravizados". E ao final comentei em tom
algo irritado sobre ter que falar sobre isso: "eu fico puto da vida
de falar sobre isso". Tive a impressão de ouvir alguém dizer:
"Então não fale."
E é aí exatamente que está a ferida aberta.Se dói na alma uma
herança que se carrega e pesa no próprio sangue, você cala,
se aquieta em mudo temor, se anula diante da realidade e a
consciência de suas raízes, aquela que poderia levá-lo a um cons-
ciência mais aguda de si mesmo, vai para o ralo. A vontade
quebrada ao meio, fruto da repressão que sofremos no passado
e que está registrado de modo indelével em nosso sangue, registro
qual marca de ferro em brasa na carne, no sangue de todos os
descendentes o registro preciso de toda barbárie cometida contra
os negros que foram alvo da escravidão. Inevitável e irrefutável.
E para além da herança interior, do sangue, há outras, tais como,
por exemplo, favela, coisa bonita, alvo de turistas sádicos e pintado
em cores berrantes como cultura local. Ora, não há nada de bonito
em favela, nem aqui e em nenhum outro lugar do mundo.
E aqui no Brasil sabemos a gênese desta miséria chamada favela,
sempre de boa rima, revela, vela, reza, tristeza e uma vida em
condições que beiram a degradação humana, esta a herança
de um povo inteiro que foi arrancado de sua terra-mãe, para
depois ser escorraçado, numa terra estranha, em nome de uma
suposta liberdade, expulsos de seus lugares onde dormiam quando
serviam aos seus antigos senhores. Em nome da liberdade, milhares
de homens, mulheres e crianças abandonados à própria sorte,
por todo o Brasil, negros perambulando sem rumo, sem teto,
sujeitos a todo tipo de desvio na luta pela vida. E tudo em nome
da liberdade. Maldito 13 de maio!, dia em que o abandono foi
glorificado: -Vai, tens a liberdade, te viras.
-E os nossos direitos?, alguém ousou perguntar; foi eliminado.
Não, não é revolta, que a revolução está em processo, e ela só
pode acontecer quando o indivíduo tem a capacidade de se reco-
nhecer como peça de real importância dentro do sistema. A isto
dever-se-ia chamar-se CONSCIÊNCIA, simplesmente, e nada mais.
Nem negra, nem azul, nem verde nem vermelha. Apenas consciência
de si e do meio no qual se projeta a sua existência. Consciência
plena, o exato saber de suas origens e sua história.
Mas pensar em tudo isto me deixa puto da vida, por uma razão
muito simples, é doloroso, e nada disso era preciso, mas as coisas
não são assim etc e tal, mas isso dói profundamente, incomoda
falar, mas se a dor e o incômodo fizerem calar o homem, então,
que valia terá a terrível experiência pela qual nossos tão recentes
antepassados sofreram?
Então, eis o ponto central: ainda que haja a dor, não calarei,
ainda que bem isso quisesse, não o poderia e não o farei, não
deixarei morrer em mim a herança que vivo e está viva em meu
sangue, na minha carne e em minha vida.
21 de novembro de 2012, de volta da Cooperifa.
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