domingo, 3 de março de 2013


DAS REMINISCÊNCIAS DO DIA-A-DIA

Segunda-feira. Sol alto no céu, saio para a rua, meu destino na 
Grande Cidade é a Vila Brasilândia. Nas ruas vou fazendo o que 
mais gosto, que é olhar pessoas. E ouço os comentários, a cidade
está em alerta, o tempo e tudo está muito seco, há mais de 40 dias
que não chove uma gota d'água. Pego o Praça João Mendes, desço
para a Praça da Sé, embarco no metrô rumo ao Terminal Barra
Funda, para então tomar o Vila Terezinha. E a Vila Brasilândia
é assim, você percebe que está nela pelo ritmo das ruas,
vielas, avenidas de mão dupla numa pista única num sobe-desce-
ladeira que é a febre do rato. E foi das mais agradáveis a viagem, 
retorno da memória a um tempo idos lá pelos 70, em que eu e
um primo, com nossas calças bocas-de-sino 30', íamos para a 
subida da Parapuã, lá moravam umas tias e umas primas, no
pé da Serra da Cantareira. 
Mas o bom tempo é hoje, e logo estava na Rádio Comunitária
Cantareira Fm, falando sobre ser artista de rua e poesia.
Na volta, passei pela João Mendes, comprei umas essências,
tomei um café na padaria Santa Tereza e no sossego fui tomar
meu  busão de volta pra casa na frente ao Cine Jóia. Aí vem o
mano e me diz: -Vai pagá em dinheiro ou cartão? -Hã?
Se pagar comigo é R$ 2,00, se pagar na catraca é R$ 3,00.
Não tive dúvidas e perguntei a ele entre irônico e sério
(para espanto dos meus vizinhos de fila), como ele  conseguia
aquela mágica, ele não se fez de rogado e me explicou: -Pô meu,
parece que tava preso, tabalho aqui há 8 anos, é assim que
funciona, você me paga, te dou o meu cartão e você me devolve
ele pela janela, entendeu? Entendi, mas... e aí a porta do ônibus
abriu, ao subir ele ainda gritou mostrando o cartão: -Então,
vai dessa mágica aí?
O ônibus partiu, e eu (e todos), já estávamos relaxando
quando, no começo da 23 de maio o ônibus quebra. Desce
todo mundo, pego um outro semi vazio que passaria
próximo à minha casa. Acomodei-me no degrau de uma
escada e não demorou para eu ter que ouvi-lo, ele estava às minhas
costas de pé, e a seu lado, o misterioso Bill.
-Mas sabe o que foi? ela me desafiou, peitou comigo, ah isso eu
não podia admitir, Biil, catorze anos, num pode, como é que 
pode uma coisa dessas, uma menina dessa idade chegar em 
casa oito, nove horas passada da noite, ah Bill, eu disse à 
mãe dela, quantas vezes nós falamos, essa menina precisa
endireitar, mas aí a mãe dela disse: -Você vai para o Shopping
mas é por tua conta, eu estou dizendo para não ir, quando
o teu pai chegar, já sabe. Mas sabe, Bill, sabe o que ela fez, 
pois é o que a mãe dela disse, eu vou mesmo ninguém manda
em mim, assim, Bill, desse jeito, é Bill, eu sei que hoje é diferente,
mas Bill, me diga o que que é que esta menina vai achar lá na
represa, qual represa?, apois a da Avenida Kennedy, como é que 
pode, Bill, uma menina de catorze anos, imagina se alguém pega
essa menina, leva pro mato e estrupa (sic), Bill, hã, ah, rapaz aí eu
bati, mas sabe Bill, tô arrependido, acho que bati muito,hein?,
rapaz, mas ela chegou, já era passada nove horas, ela entrou 
eu perguntei: De onde vens essa hora, ela disse, fui com as
amigas ao shopping, eu disse, mas tua mãe não  disse que era 
para não ir, agora, me diga, o que que é que você está pensando
da vida, hein?, você tem sapato,, óia Bill, levei ela na loja,
comprei o tênis mais caro, falei pra ela, você tem calçado, roupa,
tem tudo aqui dentro, que mais você quer, sabe o que ela disse
 Bill, que era adolescente, aí a irmã dela de 16 anos chegou
e falou, é pai, somos adolescentes, aí, Biil, veja você, só tem catorze
anos peitou comigo, disse, ah, pai, é isso mesmo, nós somos do
jeito que você está educando, ela me peitou Bill, ah, aí eu não
aguentei Bill, dei-lhe um tapa no pé do ouvido que ela caiu sentada
de perna aberta em cima da cama, hã?, não, falei pra mulher, fica
quieta aí, mas eu bati demais Bill, é, aí tirei a cinta e mandei cintrada (sic),
de tudo que é jeito, aí Biil, nem te conto, veio a irmã dela de
16 anos pra cima de mim, aí não prestou, Bill, foi cintrada,
fivela, fiquei cego, Bill, hã?, não a mulher ficou quieta, é mas
depois ela me falou que não me reconheceu, que as meninas
estavam cheias de hematomas, hein? não, hoje eu liguei ela
nem quis falar comigo, não, não, vou largar mão, não vou fazer 
mais nada, não Bill, é mas eu bati demais, a mãe delas falou,
machucou muito, hein, prende nada, essa lei não pega, dei o
sinal e desci. Começou a chuviscar.


27/28 de agosto de 2012

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