Sim, minha amiga,
Torno a ti a palavra
Em versos de duvidosa poesia,
A mão esquerda segurando o crânio,
A mesma mão que acariciou os teus recônditos mais íntimos,
O mesmo crânio que viu com olhos os teus olhos brilhantes
E beijou com a boca e com a língua o calor da tua boca e da tua língua,
E ouviu os gemidos da tua voz rouca, doce e pálida,
E sentiu o cheiro da tua nudez crua e viva.
A mesma carne viva que guarda as veias e artérias quentes
Dentro do crânio suspenso no ar pela mão esquerda,
Os poros da memória a pipocar esporos nos canteiros do cérebro,
A tua imagem tão clara quanto tudo quanto vejo agora,
Luz a revelar a intensidade de cada coisa,
As paredes, as mesas, as cadeiras
E nelas sentadas os homens e as mulheres,
Cada qual escondendo em si um secreto segredo.
Sim, amiga,
Vede que não fui muito longe na longa viagem,
Continuo o mesmo
E em todas as fugas geográficas que faço,
No mesmo lugar que embarco, desembarco,
Às margens da marginal que corre à beira do rio
Da vida visitando as casas que sonham palavras,
Pintando o risco no correr do pincel.
Oh minha amiga e aliada,
Uma palavra apenas para dizer-te,
A tela em branco depois de pintada,
Das duas uma,
É um erro para sempre cometido,
Ou um acerto para sempre perpetuado.
18 de outubro de 2012**
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