AMANTE
Era sábado à tarde. Chegou de mansinho, diáfana e informe. E foi se
introduzindo sorrateira. Já à noite foi para a cama comigo, mas ela não queria
dormir, insistia que queria a mim, não, nada de posse, é que gosto de estar
dentro de você, correndo dentro das suas veias, palavras logo tornadas em
atos. Domingo, 06h30, nem esperei o despertador tocar, meio quebrado me
levantei, pouco dormira, o trabalho me esperava na Praça, quis deixá-la, mas ela
insistiu, entrou no carro comigo e lá fomos. Não havia como resisti-la. E foram
longos os segundos e minutos daquela manhã de domingo. Sol alto, avisei
a todos e saí. E ela comigo. Entramos no bagageiro do carro, ela deu uma
sossegada e dormi por quase uma hora. Quando voltei, já não era mais o mesmo.
A tarde se arrastou e com ela me arrastei até a hora de voltar para casa. Ah, como
foi bom estar em casa. Tentei dispensá-la, mostrar-lhe que já era o bastante,
que estava safisfeito com aquela inesperada e insistente visita. Mas, embalde. Ela
percebeu minha fraqueza e disso se aproveitou. Passou a noite inteira em mim,
trazendo-me as mais esquisitas sensações , frios e intensos calafrios e exclamações,
ai meu deus, ai meu deus, e gemidos seguidos de sentimentos contraditórios, os pés
como que pregados ao chão, e a distância entre o dormitório, o banheiro e a cozinha
transformados em medidas de extensão saarianas. Passamos a madrugada enrolados
um no outro, e quando percebi, havia perdido por completo a noção de tempo.
Era segunda de manhã. mas eu estava certo de que era terça, e talvez até quarta.
Estranha droga essa que altera tão intimamente ciclos circadianos. Ainda assim,
me rebelei, disse a ela, não, não vou ficar aqui, tenho que sair, preciso sair, pagar
as contas de telefone e luz, e assim o fiz. Ela não se fez de rogada, vou junto, e foi.
Desci para a avenida, descida, sabemos, é mais fácil. Paguei as contas, e ainda
acreditando estar com a sensibilidade refinada me pensei, jogarei na loteria, ela riu.
Para voltar para casa ela veio me empurrando aos pouquinhos, subida, eu gemia baixinho
e me dizia, logo chegaremos, aguentaí. E aguentei. Todo o meu desejo era me esparramar
na cama e lá me deixar, igual se fosse uma poça de lama secando ao sol. Mas qual nada.
Ela não me largou e me umedeceu de outras estranhas sensações, a perfeita impressão
de que minhas células todas estavam se desmanchando entre gélidas e pegadas em fogo.
Sonhei sonhos impossíveis, variações mescladas dos acontecimentos mais recentes
da realidade misturadas a imagens que Dali não ousaria desenhar e pintar. Na tarde
da segunda-feira, olhei-me ao espelho, ela ao meu lado em mim, e não tive
dúvidas, ela estava amarrada às minhas veias e não sairia tão cedo. Se estávamos na
cama ela me fazia sentir o ridículo que é um homem só cuidando de si mesmo. Aí
ela se aproveitava ainda mais, e mais eu praquejava, mais eu dizia, ai meu deus,
ai meu deus, e gemia enquanto da cama me levantava e pelos corredores
da casa me arrastava. Foi a mais longa das madrugadas e só vim a saber que
dia era aquele dia quando, ao despontar do sol abri a porta, divisei o quintal,
lá no alto da escadaria a garagem, onde estava o jornal. Terça-feira.
Conversei com ela, pedi uma trégua, eu não aguentava mais, ela disse, mas eu
quero e me fez tossir como quem tem um graveto preso na garganta e me fez
carícias que doeram-me os olhos e a cabeça e os músculos e ossos. Quando
chegou o meio do dia daquela terça eu já sabia, eu estava mal, muito mal
mesmo, não adiantava mais falar com ela, nem súplicas misturadas
a chás de hortelã, nada diminuiria a resistência dela, o que passou
a se configurar como um problema, pois que falei, vou deixara barca
descer o rio. E assim o fiz. E fiquei pior, muito pior. Início da noite de terça,
já não pensava nem imaginava coisa alguma, mas estava certo de uma coisa,
ela só me queria na cama, e a noite e a madrugada seriam longas e solitárias,
ainda que com ela literalmente grudada em mim. No início da quarta-feira,
ao me levantar mais uma vez, tive a clara e doce impressão, nossa,
estou melhorando, os pés já estão se despregando do chão. Enganosa alegria,
parece que ela percebeu o ardil e me cobriu de outros frios e calafrios. E outros
incômodos psico-físicos difíceis de serem postos em palavras. Mas pelo menos
já estava sabendo como tratá-la e à tarde, não sem uma grande esforço,
penteei meus cabelos. Ela está aqui, não me sai da cabeça, dos olhos, da garganta
e não se desgruda nem um só instante do meu sangue. E não ganhei nada na loteria.
30 de maio de 2012
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